Literalmente Literário.
Piccola Macchina.

Tchaikovsky e tratores somam cordas aos motores. Zunir allegros de óleo diesel, de varas e engrenagens, ajeitam o probo inconcebível à mente de suas lavagens. Unívoca brasa peitoral que como a prima um agudo retiniu, do mais profundo da aura maquinal que de pronto a razão me abscindiu. Nergal e Nero, do necro ao tolo, fadou-me o ferro de emugrecer-me em lodo. Gazua profana que me invadiu e o silêncio me tomou, serão seus olhos lânguidos fendidos o juízo que destino me jurou?

Mateus Soares Rodrigues, 16 de Maio de 2012.

Rabo Gordo.

- Deite-se no divã. Ahn, como posso te dizer, o que te aflige? Abelardo, certo?

- Certo.

- E então, o que há? - Eu jurava que estes altruístas de meio período recém estagiandos de uma faculdade de psicologia chinfrim eram cheios de papagaiadas, que até cagavam colorido e tudo mais. Me surpreendi positivamente com a rispidez. Afinal, se eu quisesse alguém me alisando e beijando meu rabo, pagava quarenta pratas pruma puta qualquer e mandava ela gritar que meu caralho é o máximo pro puteiro inteiro ouvir. 

- Me mandaram aqui.

- Quem mandou?

- Não sei se foi meu supervisor, o diretor, o caralho, juro que não sei. Só tinha um recado pregado no mural da minha mesa lá na redação.

- Entendo. E por que você acha que “o caralho” te mandaria até aqui? Essa brincadeira não é de graça.

- Nenhuma é, doutora, diga-se de passagem, mas eu acredito que seja pelos meus últimos produtos pela corporação, meus últimos artigos.

- Me conta mais.

- Ah, muita gente se matando, muita felação e muita porcaria. Esses jornaizinhos do submundo de hoje em dia querem uma realidade menos crua, eu acho. Sabe como é né? Tem medo de tomar multa, censura e a porra toda. 

- Só isso?

- Bom, os boçais do escritório também falam que eu escrevo meio “nada com nada”. Eles que não entendem um puto.

- “Nada com nada”?

- É, falam que eu sou anacrônico.

- Por?

- Funciona mais ou menos assim, eu faço menções de realidades passadas, outros tempos, pra tentar exprimir melhor o que eu to pensando, entende? Mas esses caras de pica, escritores de crítica pornô acham que não faz sentido. Nem uma foda eles sabem analisar, que dirá minha coluna.

- E por que faria sentido?

- Porra, pensa bem. Olha pela janela desse consultório doutora e me diz se vale a pena escrever sobre o que você vê? Eles me acham caduco porque sentem que a água tá batendo nos colhões, que tudo caminha em direção a um balde enorme de bosta e que tá tudo cada vez mais fodido, que vivemos o auge da decadência, só fingem que não percebem, acham mais bonito passar um quilo de maquiagem à base de porra na população toda, veiculando sensacionalismo barato, vetando conteúdo e me mandando pro psicólogo. Olha doutora, com que eu ganho escrevendo esses artigos eu não compro um saco de peidos, sei o que eu to fazendo. Não é mais digno resgatar os tempos áureos como forma de reivindicar algo melhor pra gente ao falar dos detalhes mais sórdidos desse bolo de esterco rodeado de vermes chamado ”hoje”?

- É Sr. Abelardo, faz sentido mesmo. Encerramos por aqui. Você me dá um segundo?

- Claro.

E saiu rebolando seu rabo gordo dentro d’ um terninho apertado de secretária safada, rumando à mesinha onde estavam as papeladas das receitas médicas e as fichas dos outros pacientes. Voltava com dois envelopes.

- Tá aqui olha, entrega esse protocolo pro teu supervisor e essa receita médica na farmácia da sua preferência.

- Tá certo.

- Passar bem.

Saí do consultório e rumei a redação. Era maio, já fazia frio.

Mateus Soares Rodrigues, 4 de Maio de 2012. (In: Contos, Caras e Coitos.)

Rocco.

Rocco só queria ser feliz. Balançava suas perninhas no ar, sentado no parapeito do último andar daquele prédio fatídico que todos nós já conhecemos. Com seus olhos cerrados de comoção observava o virulento espetáculo da vida de cara para a avenida. Não tinha cigarros, bebida ou cocaína. Só levava consigo um lenço e um punhado de balinhas, um punhado de caramelos. Rasgou o papel e colocou na boca um dos doces. Há anos não parava para chupar uma bala. Mergulhou num turbilhão de lembranças. Aquele gosto melado varreu sua cabeça deixando de pé somente as lembranças de seu tão singular e saudoso herói. Papai que sempre que voltava cinza e esgotado do trabalho e trazia consigo uma porção de docinhos sortidos. Pisava em casa, dava-lhe uma beijoca na testa e colocava as guloseimas na cabeceira da cama do garoto, que já inerte, sonhava entorpecido com o sono. O doce em sua boca jamais teria o gosto de outrora. Era doce e só. Engoliu os restos mortais de aspartame e tateou até o lenço. As mãos grandes e rudes não sabiam distinguir seda de cetim, mas isso na verdade pouquíssimo importava. Guardava aquele lenço como fosse um segredo, dentro da antiga caixinha de música de sua mãe. A caixinha, casa de uma bailarina desbotada e dona da música do seu ninar. Lembrava dos almoços, antes de ir pra escola, em que mamãe limpava seu rosto toda vez que o pequeno Rocco se concentrava mais na televisão do que na própria comida e sujava até o nariz. Não havia mais aquela salivada na ponta do lenço que conferia poder de limpeza infalível, nem o toque atencioso de mãe. Era só um lenço roto. Enxugou os olhos e mirou a sua volta. As ruas infestadas de humanoides mesquinhos cheios de merda e de pressa dentro de si. Carros, máquinas e os próprios prédios resumidos às suas respectivas morbidezes. Buzinas e campainhas compunham uma escatológica sinfonia dentro de sua cabeça atormentada. Onde foram parar os lenços e os caramelos? Porque só nos resta esse enxerto sanguinolento da mais pura merda e agonia? Subiu no parapeito e com um passo, um lenço e um doce parou o trânsito.

Mateus Soares Rodrigues, 19 de Abril de 2012. (In: Contos, Caras e Coitos.)

Cinco e Caralhada.

“Esta noite os termômetros das redondezas marcaram cinco graus célsius registrando então a madrugada mais fria do ano. A tendência é uma queda ainda maior na temperatura, podendo atingir a mínima de quatro graus.”

Desliguei a televisão. Já iam começar com aquelas putarias sensacionalistas de sempre e meus bagos estavam tímidos demais pra continuar encolhido como um amontoado de entulho entre as cobertas. Enrolado na manta, que diga-se de passagem parecia de um andarilho, me arrastei até o banheiro. Mijei, não lavei as mãos e me enrolei novamente nos trapos mencionados anteriormente. Não tinha aquecimento na cozinha. Liguei o forno. Acendi uma boca do fogão pra esquentar um café. Pinguei um pouco de conhaque de gengibre pra cortar a friagem e mandei goela a baixo num gole só. Não sentia muito frio, na verdade aquela posição, sentado na  mesinha da copa em frente ao fogão, tava legal pra cacete. Dava pra passar horas ali, sem mover meu traseiro um centímetro se quer. Não tinha pregado os olhos ainda. Me dei conta que já eram cinco e caralhada da manhã. Ouvi o tilintar das chaves ainda no corredor seguido pelo som do miolo da fechadura sendo mexido. Não me disse nada ao entrar, só ameaçou um sorriso rápido entre o canto dos lábios que não obteve muito sucesso. Trazia vinho e cigarros. De mentol, é claro. Sempre vale a pena esperar por você até tarde, não é mesmo boneca?

Mateus Soares Rodrigues, 14 de Março de 2012. (In: Contos, Caras e Coitos.)

Um Dia Cretino.

Entre tossidas, engasgos e sonoras escarradas, amanheci. Uma enxaqueca filha da puta parecia torar minha cabeça de dentro pra fora. Levantei da cama. Um pouco rápido demais. Só percebi o quão precoce meu despertar havia sido depois de expelir uma consistente jatada de vômito. Não era qualquer vômito, era aquele tradicional excremento maturado durante uma noite de sono que só um bêbado preguiçoso conhece. Aquele adiado pro dia seguinte porque apagar foi prioridade. Ou necessidade, quem sabe? Que sabor lamentável. Se o inferno tiver algum gosto com certeza absoluta é exatamente o mesmo daquela porra. Saquei um cigarro de mentol do maço guardado no criado mudo. Ainda - categoricamente, se me permite - de pica dura (afinal não são todos os bastados que conseguem a façanha de manter uma ereção depois daquele banquete gástrico) vaguei até a cozinha. Acendi meu fumo no fogão. Exato, no fogão. Não sei aonde vão parar meus esqueiros ou caixas de fósforos. Só posso enfiar no cu, é a única explicação plausível. Enquanto fumava, esquentava no mesmo fogão um resto de café velho. Não estava com saco pra coar um novo, sem falar que a bosta do gosto não muda muito. Entre tragadas, flatos e goladas, coçadas no rabo e bocejos ali em pé, em frente à janela, me dei conta que o dia já estava no seu fim. O sol gasto já se curvava, escurecendo aquele céu apático dando lugar à palidez da lua, sozinha naquela tela sem estrelas. Que dia cretino. Me mandei pro banheiro e dei uma legítima cagada de chopp, não é mesmo Buk? Com espuma e tudo. Bati uma punheta tomando uma ducha e voltei pra minha cama. Como diria JP, “preciso dormir antes que minhas olheiras atravessem meu crânio e me saiam na nuca!”. Dormi. Acordei e limpei o vômito. Chovia pra caralho.

Mateus Soares Rodrigues, 13 de Março de 2012. (In: Contos, Caras e Coitos.)

Blen Lues, A Promíscua.

Mandou uma legítima hielada num trago só. Fazia um calor de foder. Empenou uns cinco gramas de pó nariz acima e desceu os lances de escada daquele prédio decrépito como se fosse uma lebre cheirada. Nada nas mãos, muito pouco nos bolsos como sempre. Parou no primeiro inferninho abarrotado de neon e gente bêbada que tirava os últimos vinténs do bolso pra pagar a entrada e uma dança. Como essas merdas fedem não? Fedem a escrotidão, alguma coisa muito venérea. Cheiro de puta barata. Sentou no bar, pediu um fernet e acendeu um cigarro de mentol. O fernet tinha uma cara horrível, parecia um xarope de feto turvo e viscoso, no mínimo era alguma porcaria nacional bem porca que dava um barato bacana. Olhava com olho clínico pra aquelas vagabundas, sabia quais davam uma boa chupada, sabia quais fingiam gozadas e sabia quais tinham todos os dentes mesmo que não abrissem a boca. Apagou o cigarro no copo de bebida e caminhou em direção às caixas de som. Colocou uma ficha e escolheu sua música enquanto mirava uma pequena criatura no canto onde se concentravam umas poltronas vermelhas, pulguentas e carcomidas. Não era feia, mas estava muito longe de ser bonita, extremamente mirrada, porém ainda havia vestígios dos seios fartos que tinha na juventude. A maquiagem pesada já se fazia borrada, resultado dos trabalhos sórdidos daquela noite. Aproximou-se e trocaram algumas palavras:

- Qual seu nome? - disse ela.

- Não interessa. 

- O meu é Blen, Blen Lues.

- Seu nome não é importante. Aqui tem cinco pratas, vamos embora.

Se mandaram pro pulgueiro mais próximo. Foderam como animais no cio a noite toda, gemidos e grunhidos escorriam por debaixo da porta daquela espelunca digna de pena. Por fim, ele descarregou o tambor do seu revólver no rosto da prostituta e sorriu. Morreu na cadeia depois de oito meses. De gonorreia. Ou sífilis, tanto faz. Quem diria que o nome era importante.

Mateus Soares Rodrigues, 10 de Março de 2012. (In: Contos, Caras e Coitos.)

Clausa Ódium.

Úlceras pútridas e purulentas sois cesuras tétricas de tua lôbrega potência, como o parto d’um túrbido cordis anêmico fruto precito de teus balões de arsênio. Oh, dantesca fortuna, tempos de pérolas e porcos, Athos e Porthos, porquanto me açoitas assim? Insinuas Capitu e Margarida, não tens piedade por mim? Num trago só, leva-me daqui.

Mateus Soares Rodrigues, 2 de Fevereiro de 2012.

Convite & Baile.

“Cordialmente, em nome da Nova Sociedade Epicuréia, através desta, a epístola número XX, faz-se a cândida e lhana invitação ao Baile da Rua Manuel Antônio, onde Baco é o banquete, as amásias a pilhéria e a volúpia violenta. Traje: à socapa.”

- Gozemos então as Valérias sem nome, bebamos de todos frascos e fumemos todos os vapores porquanto tímido sopro infeliz é a vida sem a convulsão das orgias febrecitantes e os delírios dos etílicos desvairados. Um brinde aos Condes cuja Condessa hei de possuir e as vadias cujas almas já foram compradas! Ao amor que não existe e a morte que nos aguarda!

Mateus Soares Rodrigues, 29 de Novembro de 2011.

Je Suis Romantic.

Ébano e marfim curvam-se diante da harmônica perfeição do casal formado pelos teus olhos azzurra de Treia e teu rosto de bronze napolitano. Samotrácia rendeu-se diante de ti, ajoelhando seu alvo mármore em uma copiosa reverência a tua perfeição. Sois afortunadas as brisas cálidas de verão que afagam tuas cintilantes mechas de mil sóis enquanto beijam teu rosto de mil musas envolvendo teu corpo de mil curvas. Invejo-as como Werther jamais cogitou poder. Como a bala nos miolos daquele e sua carta ensangüentada, o meu legado a ti pertence, os meus versos de navalha… A ti, oh Vênus iluminada.

Mateus Soares Rodrigues, 30 de Outubro de 2011.

Ode à Solidão.

No bico dos floretes mais agudos e no gatilho de garruchas carregadas estão estúpidas libidos defendendo suas frívolas amadas. O vaporoso hálito de jovens fidalgos e o soluço dos tristes embriagados remetem às lembranças de brasis afagos, daquelas mesmas, de outros versos em tempos passados. Agradeço-lhes Senhoras, obrigado, pelo troco que me foi tomado e pelo amor que foi-me doado, fazendo de mim não simplesmente homem, mas dos amantes o renegado, dos libertinos, escudeiro, pela boêmia, enamorado e da poesia seu herdeiro.

 Mateus Soares Rodrigues, 12 de Outubro de 2011.