Rabo Gordo.
- Deite-se no divã. Ahn, como posso te dizer, o que te aflige? Abelardo, certo?
- Certo.
- E então, o que há? - Eu jurava que estes altruístas de meio período recém estagiandos de uma faculdade de psicologia chinfrim eram cheios de papagaiadas, que até cagavam colorido e tudo mais. Me surpreendi positivamente com a rispidez. Afinal, se eu quisesse alguém me alisando e beijando meu rabo, pagava quarenta pratas pruma puta qualquer e mandava ela gritar que meu caralho é o máximo pro puteiro inteiro ouvir.
- Me mandaram aqui.
- Quem mandou?
- Não sei se foi meu supervisor, o diretor, o caralho, juro que não sei. Só tinha um recado pregado no mural da minha mesa lá na redação.
- Entendo. E por que você acha que “o caralho” te mandaria até aqui? Essa brincadeira não é de graça.
- Nenhuma é, doutora, diga-se de passagem, mas eu acredito que seja pelos meus últimos produtos pela corporação, meus últimos artigos.
- Me conta mais.
- Ah, muita gente se matando, muita felação e muita porcaria. Esses jornaizinhos do submundo de hoje em dia querem uma realidade menos crua, eu acho. Sabe como é né? Tem medo de tomar multa, censura e a porra toda.
- Só isso?
- Bom, os boçais do escritório também falam que eu escrevo meio “nada com nada”. Eles que não entendem um puto.
- “Nada com nada”?
- É, falam que eu sou anacrônico.
- Por?
- Funciona mais ou menos assim, eu faço menções de realidades passadas, outros tempos, pra tentar exprimir melhor o que eu to pensando, entende? Mas esses caras de pica, escritores de crítica pornô acham que não faz sentido. Nem uma foda eles sabem analisar, que dirá minha coluna.
- E por que faria sentido?
- Porra, pensa bem. Olha pela janela desse consultório doutora e me diz se vale a pena escrever sobre o que você vê? Eles me acham caduco porque sentem que a água tá batendo nos colhões, que tudo caminha em direção a um balde enorme de bosta e que tá tudo cada vez mais fodido, que vivemos o auge da decadência, só fingem que não percebem, acham mais bonito passar um quilo de maquiagem à base de porra na população toda, veiculando sensacionalismo barato, vetando conteúdo e me mandando pro psicólogo. Olha doutora, com que eu ganho escrevendo esses artigos eu não compro um saco de peidos, sei o que eu to fazendo. Não é mais digno resgatar os tempos áureos como forma de reivindicar algo melhor pra gente ao falar dos detalhes mais sórdidos desse bolo de esterco rodeado de vermes chamado ”hoje”?
- É Sr. Abelardo, faz sentido mesmo. Encerramos por aqui. Você me dá um segundo?
- Claro.
E saiu rebolando seu rabo gordo dentro d’ um terninho apertado de secretária safada, rumando à mesinha onde estavam as papeladas das receitas médicas e as fichas dos outros pacientes. Voltava com dois envelopes.
- Tá aqui olha, entrega esse protocolo pro teu supervisor e essa receita médica na farmácia da sua preferência.
- Tá certo.
- Passar bem.
Saí do consultório e rumei a redação. Era maio, já fazia frio.
Mateus Soares Rodrigues, 4 de Maio de 2012. (In: Contos, Caras e Coitos.)